Artigo

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Revista Agroecologia Hoje, Ano III, no 17, páginas 13-14, Novembro/Dezembro 2002

Compostagem de Resíduos Orgânicos

O aproveitamento racional das sobras do dia a dia Falar de compostagem é sempre uma grata satisfação. Nota-se hoje “nova mentalidade” instalada na sociedade, pela qual as populações, tanto do campo quanto das cidades, estão não só se percebendo a importância de uma vida mais saudável, como buscando por ela. A produção de alimentos através de métodos menos agressivos ao ambiente, como a agricultura orgânica ou alternativa, já não é coisa de sonhadores e utopistas. A compostagem, esta ainda ilustre desconhecida até mesmo de produtores rurais que pretendem ser ou se transformar em orgânicos, é uma das mais antigas de reciclagem e aproveitamento racional de resíduos sólidos orgânicos de que se tem notícia, sendo de fundamental importância nesta busca de qualidade. O Prof. Edmar J. Kiehl, da ESALQ – Piracicaba, começou a pesquisar e publicar sobre o assunto no final dos anos 50, tendo talvez a mais extensa bibliografia brasileira na área de compostagem e processamento de resíduos. A compostagem é uma realidade Pode-se dizer que a compostagem ainda continua desconhecida, tanto dos produtores rurais como de cidadãos urbanos, todos grandes geradores de resíduos orgânicos. Hoje, nas pequenas cidades e grandes metrópoles, nas diversas empresas e na maioria dos empreendimentos agropecuários se geram diariamente toneladas de resíduos orgânicos, que são em sua grande maioria ainda descartados em aterros ou “lixões”. No caso das propriedades rurais, resíduos orgânicos são abandonados em qualquer lugar, na maioria das vezes enterrados ou simplesmente queimados. A falta de conhecimento sobre o valor que estes resíduos orgânicos podem ter, se bem processados, ou dos graves problemas que causam quando dispostos sem critério ou queimados é o grande desafio de conscientização, que nos propomos a sanar. O valor gerado numa boa compostagem não é somente econômico, mas social, ambiental e agronômico, pois quando a matéria orgânica é depositada em aterros e/ou lixões sofre decomposição descontrolada, quase sempre por microorganismos anaeróbios. Isto gera problemas de mau cheiro causado por gases e o chorume - líquido escuro, viscoso e mal cheiroso com alta carga orgânica - que contamina diretamente o solo e o lençol freático, além de atrair moscas, ratos, urubus, baratas e outros vetores de doenças. Nas cidades é preciso que as municipalidades e o poder público iniciem, o mais rápido possível, programas de educação ambiental para uma coleta seletiva nas residências e criem unidades de reciclagem e compostagem, que diminuam o volume de resíduos. Programas como estes não são difíceis de se implementar, quanto alguns querem fazer parecer. Basta que sejam contemplados programas de educação ambiental nas escolas e comunidades organizadas e implantados projetos de coleta seletiva e reciclagem pelas Prefeituras, para que os problemas com resíduos sejam solucionados em 50 a 60 %. A EcoSigma está ajudando a desenvolver, juntamente com o Conselho Municipal de Meio Ambiente e o Departamento de Limpeza Urbana da Prefeitura de Campinas, novo modelo de gestão dos resíduos coletados (cerca de 800 t/dia). Este contempla um programa de comunicação para a coleta seletiva, que será estendida gradualmente a todos os bairros da cidade (prazo de 4 anos) e a formação de cerca de 20 cooperativas de catadores, com 20 a 30 pessoas cada, que se tornam recicladores dos resíduos (vidros, metais, plásticos e papéis). Pretende-se processar o resíduo orgânico em composto numa unidade piloto a ser implementada, em parceria entre EcoSigma, Ecocamp e a Prefeitura de Campinas, na área do aterro Delta (projeto piloto para 30 t/dia, mas potencial de 400 t/dia). Nas áreas rurais, as possibilidades de se produzir composto orgânico para a agricultura comercial decorrem basicamente da condição de o produtor ter ou não à sua disposição as matérias-primas necessárias. Se ele tem na propriedade matérias-primas que possam ser compostadas ou possibilidade de adquiri-las no mercado da região a preço razoável, será vantajoso trabalhar com compostagem também em agricultura de grande escala, por exemplo em cafeicultura, fruticultura, cana e não só na horticultura e floricultura (culturas de alto valor agregado). Temos exemplos, próximos de Campinas e no cerrado mineiro, de produtores utilizando processos bem complexos e interessantes de compostagem. Um grande produtor de figo em Valinhos trabalha há 8 anos com compostagem e praticamente faz a adubação básica com composto orgânico para todas as lavouras, que somam mais de 40 hectares de figo em produção. Antes ele tinha problemas com a produção, pois a adubação química em larga escala predispunha o desequilíbrio nutricional e consequentemente maior utilização de venenos. Tudo isso estava fazendo com que o custo de produção fosse alto. Segundo ele, o gasto em venenos era equivalente ao valor de um caminhão Mercedez por ano. Elaboramos um projeto e ele começou a buscar alternativas. Foi atrás de matérias-primas no mercado, pois dispunha somente de restos das podas dos figais na propriedade para fazer a compostagem. As matérias-primas são adquiridas de fora, como: grande volume de casca de eucalipto, nas firmas de papel e celulose da região, onde obtém as cinzas da queima de madeira nas caldeiras, um pouco de calcário, esterco de: suíno, galinha, curral e bagaço de cana. Todas as matérias-primas somam 450 toneladas em cada batida de composto. Para se movimentar esta massa, dispõe de pá carregadeira, faz mistura, monta leiras. No projeto, cada um dos itens tem percentual definido de resíduos das indústrias e estercos, para um tanto de bagaço, palha ou casca, formando um “Blend” equilibrado. Trata-se de um processo de compostagem balanceado, em que a matéria-prima contém a proporção adequada de volumosos e de nutrientes. Os volumosos são palhas, bagaços e cascas de eucalipto. Os nutrientes são resíduos de indústrias, estercos, cinzas e calcário. Além disso, ainda inocula microorganismos que aceleram o processo de compostagem e procura manter a umidade em cerca de 60 %. Consegue realizar todo o processamento em cerca de 50 a 60 dias, no máximo. Como resultado, coloca este produto embaixo dos pés de figo, em quantidade de 12 a 15 quilos de cada vez, duas ou 3 vezes por ano (25 a 50 kg/planta/ano). Outro exemplo que temos é de um grande produtor de suínos da região de Capivari, que inclusive faz composto para vender. Em 92, quando começou o trabalho, tinha problemas sérios de poluição, pois são cerca de 2.500 matrizes, aproximadamente 25 mil animais, que produzem por volta de 250 mil litros de chorume ou cerca de 10 toneladas/dia de esterco (matéria úmida). É um volume muito grande, que era despejado em grande parte no ribeirão, causando inclusive problemas com a CETESB. Nosso trabalho resultou num processo em que ele mistura esterco de suínos, chorume, bagaço de cana, cinza de usina, torta de filtro, um pouco de esterco de galinha também, para fazer balanceamento, e um pouco de fosfato natural e calcário. Inocula nesta massa microorganismos de aceleração e em 50 dias tem o produto pronto para comercialização. São cerca de 400 a 500 toneladas/mês, colocadas no mercado, oferecido aos produtores orgânicos e não orgânicos da região (num raio de até 250 km), que gostariam de produzir com matéria orgânica. Eles tem diversos clientes que não são orgânicos, como produtores de crisântemos e de outras flores, mas que utilizam muita matéria orgânica, na faixa de 15 a 20 toneladas por hectare por ciclo, 2 a 3 vezes ao ano. Além disto, vende grande parte para os produtores orgânicos no cinturão verde de São Paulo. Sem dúvida nenhuma, uma das melhores opções para quem realmente quer ser produtor orgânico, pressupondo-se que consiga matéria prima boa ou composto de qualidade por um preço razoável. Se o produtor tem capacidade para produção e armazenagem, tem um produto pronto para uso, que pode armazenar por até 6 a 8 meses, sem grandes perdas de qualidade, que se torna uma ferramenta de trabalho de grande valor para a agricultura orgânica. Aproveitar resíduos orgânicos num bom projeto de compostagem, não só é interessante aos produtores rurais, como para a sociedade, pois beneficia sobremaneira os aspectos ambientais, econômicos, sociais e da sustentabilidade nos sistemas de produção.

Fernando Figueiredo
Diretor da EcoSigma
Engenheiro Agrônomo
Consultor em Gestão Ambiental, Tratamento de Resíduos e Agricultura Orgânica

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